SÃO PAULO – A decisão do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) de implodir o protocolo de intenções firmado pelo ministro Eduardo Pazuello (Saúde) para a aquisição de 46 milhões de doses da vacina CoronaVac, desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac em parceria com o Instituto Butantan (SP) para combater o novo coronavírus, representou uma resposta política ao governador João Doria (PSDB), mas pode não ser um movimento definitivo contra o imunizante.

Esta é a avaliação da equipe de análise política da XP Investimentos, a despeito das recentes falas do mandatário. Para o analista político Paulo Gama, o episódio é mais um capítulo na disputa entre o Bolsonaro e governadores, observada durante a pandemia de Covid-19. Se antes os desentendimentos se concentravam à aplicação de políticas de distanciamento social, agora a vacina ganha espaço no debate.

“Não me parece, pela fala de Bolsonaro, que está abortada completamente a tentativa de ter uma vacina a nível federal. Mas ele faz questão de evitar que Doria triunfe agora. Foi uma tentativa de brecar o que seria um grande anúncio. Doria estaria em Brasília, terra de onde Bolsonaro governa, para surfar um pouco no êxito do governo de São Paulo em ter a vacina. Bolsonaro quis dar um basta nisso”, avalia.

Este foi um dos assuntos do podcast Frequência Política. programa é uma parceria entre o InfoMoney e a XP Investimentos. Ouça a íntegra pelo player acima.

Para o analista, os atritos envolvendo a produção de uma vacina também foram usados por Bolsonaro para uma reaproximação com sua base de apoiadores mais fieis, incomodados com movimentos do presidente como a aproximação de partidos do chamado “centrão” e a indicação do desembargador Kassio Nunes Marques para vaga de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).

“Mas os monitoramentos mais recentes mostram que, para além dos grupos muito bem definidos de bolsonaristas e antibolsonaristas, o usuário médio das redes está um pouco incomodado com o fato de haver uma disputa política que, no fim das contas, pode acabar impactando a vida de todos na hora da distribuição da vacina”, pondera.

Já a analista política Júnia Gama, também da equipe da XP Investimentos, diz que os embates em torno da vacina destoam de uma mudança de comportamento observada no governo Bolsonaro.

“Desde abril, ele voltou atrás em muito do que havia dito durante a campanha. Disse que não iria fazer toma lá dá cá, que não ia governar com alianças com partidos do ‘centrão’… Vimos uma inflexão em vários pontos de sua postura habitual, mas não na questão da pandemia. Acho que ali foi a área que ele resolveu manter para preservar aquela ala mais ideológica que o apoia e exige dele essas posturas mais agressivas, negacionistas. É muito provável que o assunto acabe em uma judicialização”, pontua.

Nesta semana, o PDT acionou o Supremo Tribunal Federal (STF) a fim de assegurar competência de estados e municípios para determinar vacinação obrigatória e outras medidas profiláticas no enfrentamento à pandemia de Covid-19 – outro assunto que colocou Bolsonaro e Doria em polos antagônicos.

Além da disputa presidencial de 2022, a analista também chama atenção para a possibilidade de influência das próprias eleições municipais, com o primeiro turno marcado para daqui a 23 dias, sobre a dinâmica das vacinas em solo nacional.

“São dois candidatos às eleições presidenciais, mas mais imediatamente temos as eleições municipais. E a de São Paulo é a mais nacionalizada. Bolsonaro tem seu candidato, Celso Russomanno (Republicanos), que está perdendo espaço para o prefeito Bruno Covas (PSDB). Uma vacina vinda com o esforço do governo de São Paulo seria um ativo enorme para a campanha de Covas. De forma mais imediata, é algo que Bolsonaro está tentando evitar também”, observa.

Na prática, uma eventual retirada do governo federal nas conversas em torno da CoronaVac não impediria que 46 milhões de doses chegassem ao Brasil, mas faria com que o imunizante ficasse de fora do Programa Nacional de Imunizações (PNI), do Ministério da Saúde. O que não mais garantiria a disponibilidade das vacinas em todo o território nacional.

Apesar das falas enfáticas de Bolsonaro, a especialista não descarta a possibilidade de mudanças drásticas de posição sobre a vacina. “Não seria novidade o presidente dar um giro total e mudar sua postura, resolver que a vacina da Sinovac com o Instituto Butantan é a melhor, a mais eficaz, que as pessoas vão ser vacinadas por ela. Claro, desde que ele consiga colher benefícios políticos disso”, diz.

Para Debora Santos, especialista em assuntos jurídicos do time da XP Política, dificilmente Bolsonaro conseguirá manter posição de recusa à vacina CoronaVac caso ela tenha eficácia comprovada e receba o aval da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

A analista acredita que um dos caminhos para o avanço do imunizante, mesmo após as declarações recentes do mandatário, seria um esforço narrativo para dar poder ao papel da Anvisa no processo e até uma participação mais efetiva de militares. Quanto aos ataques proferidos à origem chinesa da vacina, a produção em solo nacional pelo Instituto Butantan pode oferecer um atalho discursivo suficiente.

De qualquer forma, os especialistas chamam atenção para os efeitos negativos da politização do debate. “É um tema que deveria ser tratado com muita transparência e nada de politização. Mas está acontecendo justamente o contrário. É algo que afeta diretamente o comportamento das pessoas. Elas precisam saber a eficácia da vacina, os resultados que ela vai trazer. Isso é fundamental não só para a saúde, mas para a retomada da atividade econômica”, conclui.

O assunto foi abordado na edição desta semana do podcast Frequência Política. Você pode ouvir a íntegra pelo SpotifySpreakeriTunesGoogle Podcasts e Castbox ou baixar o episódio clicando aqui.

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