Há dez dias, uma tartaruga-de-couro chegava debilitada à costa de Ilhéus, no Sul da Bahia. Devolvida ao mar, ela voltou a encalhar três dias depois, na Praia de Piracanga, em Maraú, cidade a cerca de 100 km da anterior. Passados mais quatro dias, o animal encalhou pela terceira vez, novamente em Maraú. Neste último sábado (24), técnicos regionais do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema) foram resgatar a tartaruga para encaminhar para o Projeto Tamar, Praia do Forte, no Litoral Norte da Bahia. Após uma viagem de mais de 10h, o animal chegou com vida, recebeu tratamento especializado, mas não resistiu e veio a óbito na madrugada desta segunda-feira (26).

A médica veterinária e coordenadora da Fundação Projeto TAMAR, Thais Pires, conta que a situação do animal, que está ameaçado de extinção, era bastante delicada por causa de toda a saga de dias de sofrimento e devido ao fato de não ter uma das nadadeiras, o que pode ter contribuído para os encalhes. “A tartaruga-de-couro é um animal ativo, ela nada constantemente, é um animal de natação contínua, então não ter uma das nadadeiras é um fator limitante”, explica ela. 

Ainda segundo a veterinária, a perda da nadadeira é uma lesão bastante característica da interação de tartarugas marinhas com a prática da pesca. Ainda assim, mesmo amputados, alguns destes animais conseguem viver. A rara espécie encontrada na Bahia apresentava cicatrização da lesão da nadadeira e possivelmente já vinha há tempo vivendo assim. “A gente sabe que a pesca é a maior ameaça às tartarugas marinhas. O náilon usado causa o estrangulamento do membro, que fica sem circulação sanguínea, necrosa e leva à amputação”, completa Pires. 

(Foto: Divulgação/Inema)

Integrante da categoria de maior risco de extinção na natureza, considerada Criticamente em Perigo, segundo critérios do Ministério do Meio Ambiente (MMA), a tartaruga era uma fêmea, pesava cerca de 300 kg e tinha comprimento curvilíneo da carapaça de 1,53m. No Brasil, a única área conhecida de desovas regulares desta espécie situa-se no litoral norte do Espírito Santo, próximo à foz do Rio Doce. O período de postura de ovos vai de setembro a abril.

Lesões

O animal foi resgatado por uma equipe da Unidade Regional do Inema, em parceria com voluntários da ONG Coração de Tartaruga. Técnicos do instituto, André Nascimento e Luciana Rosa, que acompanharam o animal em sua chegada, afirmaram que na primeira avaliação clínica a tartaruga tinha, aparentemente, graves escoriações por todo o corpo, inclusive com exposição do osso do crânio.

Após discussão, optou-se pela remoção do animal para piscina compatível com o tamanho da espécie para a realização de flutuabilidade e natação. Ao chegar ao Projeto Tamar, foi constatado que a tartaruga estava muito magra, desidratada, com dificuldades respiratórias e com o corpo cheio de lesões. “A gente deu um tratamento de suporte para que ela pudesse ter conforto diante de tantos desafios que passou, ela foi colocada no tanque, recebeu medicação, mas infelizmente o quadro estava muito agravado”, disse Thais Pires. 

Em articulação com as faculdades de Medicina Veterinária da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e da União Metropolitana de Educação e Cultura (Unime), parceiras do Projeto Tamar, busca-se agora fazer a necrópsia para entender melhor sobre as possíveis causas do encalhe. Os exames pós-morte serão iniciados terça-feira (27). “Esse indivíduo acaba colaborando com o entendimento das ameaças para a espécie”, encerra Pires. 

O QUE FAZER AO ENCONTRAR ANIMAIS ENCALHADOS NAS PRAIAS?

Ao encontrar animais selvagens encalhados em praias, o banhista deve sempre informar aos órgãos ambientais responsáveis, como Inema, Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). No Litoral Norte da Bahia, o Projeto Tamar cuida da conservação das tartarugas marinhas, numa extensão de 214 Km, que vai até o limite com o estado de Sergipe. É possível entrar em contato com o projeto através do 3676-1045.