O cenário econômico brasileiro e nordestino poderá passar por um período de desaceleração, com taxas de juros ainda elevadas e incertezas relacionadas ao cenário fiscal e eleitoral. Essa análise foi apresentada pelo economista-chefe do Banco ABC Brasil, Daniel Xavier, durante um evento realizado na última quinta-feira (24), em Recife. Xavier ressaltou que o desempenho dos setores na região apresenta contrastes, com a indústria nordestina apresentando resultados abaixo da média nacional, ao passo que o comércio registrou um crescimento superior ao do restante do país.
O encontro contou com a presença de empresários, CEOs e acionistas, que discutiram os principais desafios e perspectivas para os negócios, considerando o atual panorama econômico e político do Brasil e o papel de Pernambuco no desenvolvimento regional. Segundo Xavier, o momento exige cautela nas decisões relacionadas a investimentos e contratações, em virtude das incertezas eleitorais e seus potenciais impactos na política macroeconômica.
“Estamos vivendo um período de incerteza, onde é essencial avaliar o cenário com cuidado e serenidade, especialmente em tempos de decisões eleitorais”, enfatizou o economista.
Expectativas de desaceleração com juros altos
A projeção do Banco ABC Brasil indica uma redução contínua da taxa básica de juros, porém de forma gradual. O banco prevê que a Selic fique em 13,5% até o final deste ano e em 12,25% no próximo. Essa previsão leva em conta a desaceleração econômica e a inflação. Para o Produto Interno Bruto (PIB), estima-se um crescimento de 1,9% em 2023 e cerca de 1,5% para 2024.
Xavier também mencionou que a inflação medida pelo IPCA deve perder força, passando de uma projeção de 4,8% neste ano para 4% no próximo. Essa tendência, aliada à desaceleração da atividade econômica, abre caminho para cortes adicionais na taxa de juros.
Apesar da previsão de redução na Selic, o ambiente de crédito deve permanecer restrito. Com uma taxa nominal de 12,25% e inflação projetada em torno de 4%, o juro real continuará elevado, impactando setores mais vulneráveis às condições financeiras, como o comércio, a indústria de transformação e o setor imobiliário.
O economista destacou que a expectativa de desaceleração da economia está ligada ao comportamento do consumo e dos investimentos. O ABC Brasil observou uma diminuição na força desses componentes e acredita que os efeitos dos juros altos continuarão influenciando a atividade econômica no ano seguinte.
Indústria nordestina é mais fraca, enquanto comércio se mostra resiliente
Na análise regional, Xavier observou que a economia do Nordeste possui características semelhantes às do Brasil como um todo. Aproximadamente 60% do PIB da região é composto por serviços, enquanto a indústria representa cerca de 20%, com o restante distribuído entre agricultura e impostos, conforme os dados apresentados no evento.
Entre 2022 e agora, tanto o PIB nacional quanto o nordestino cresceram, em média, 2,7% ao ano. Contudo, as diferenças setoriais são notáveis. Enquanto a indústria brasileira teve um crescimento médio anual de 0,9%, a indústria nordestina apresentou uma retração média de 1,6% no mesmo período.
Xavier acredita que esse desempenho representa um potencial de expansão para a região, desde que sejam superados os obstáculos que impactam setores como a manufatura e a agroindústria.
No âmbito do comércio, a situação é diferente. O varejo nordestino cresceu cerca de 2,7% no período analisado, em contraste com aproximadamente 1,6% no Brasil. Para o economista, programas de transferência de renda e iniciativas de crédito explicam, em parte, essa diferença e sustentam o consumo de bens na região.
Influências dos juros globais e do petróleo
Outro aspecto relevante para a economia é o cenário internacional. Xavier destacou um ambiente de juros elevados em várias economias, acompanhado pela valorização do petróleo. Os preços próximos a US$ 100 por barril têm impactos nos combustíveis e derivados, constituindo uma pressão inflacionária adicional.
No Brasil, no entanto, a dinâmica é distinta da observada em países como Estados Unidos, Europa e Reino Unido. O economista afirmou que parte do impacto relacionado ao petróleo tem sido mitigada por medidas envolvendo a Petrobras e o governo, o que diminui a intensidade da transmissão para os preços ao consumidor.
As tarifas comerciais norte-americanas também foram mencionadas como uma fonte de incerteza para diversos setores da economia brasileira. Xavier avaliou que o impacto total dessas medidas foi inferior ao inicialmente estimado, embora setores específicos, como o açúcar, ainda dependam de negociações.
O cenário fiscal é um dos pontos críticos que devem ser monitorados. Xavier afirmou que o próximo governo deverá discutir algum tipo de ajuste nas contas públicas, dado o elevado nível de endividamento e a inadimplência que continuarão a limitar o consumo e os investimentos.
Incertezas políticas e suas consequências econômicas
Fernando Schuler, professor do Insper e diretor da Fundação Iberê Camargo, também abordou a incerteza política e seus reflexos nas decisões econômicas. Ele acredita que a discussão deveria se concentrar nas alternativas para o ajuste fiscal e no modelo de política econômica a ser adotado pelo próximo governo.
“Estamos em um momento político que é, de certa forma, angustiante”, afirmou Schuler, referindo-se à indefinição eleitoral mencionada no encontro.
O professor comparou as estratégias fiscais de diferentes administrações e argumentou que o próximo ciclo deve abordar questões ligadas ao crescimento das despesas públicas, à dívida e às regras de vinculação dos gastos. Ele acredita que existem ferramentas tanto para aumentar receitas quanto para reduzir despesas, mas as opções envolvem decisões com custos políticos.
Para as empresas, o cenário ressalta a importância de monitorar simultaneamente indicadores de juros, inflação, crédito, inadimplência, atividade e política fiscal. No Nordeste, a desigualdade de desempenho entre indústria, serviços e comércio acrescenta uma dimensão regional ao planejamento empresarial, em um momento em que a economia brasileira tende a um crescimento mais moderado.
Desafios da política econômica no pós-eleição
Os especialistas concordam que o resultado das eleições terá um impacto direto sobre a política econômica no próximo ano, especialmente pela necessidade de definir como será realizado o ajuste das contas públicas. Daniel Xavier enfatizou que o cenário base do ABC Brasil considera a continuidade da desaceleração econômica, a redução gradual da Selic e um certo grau de ajuste fiscal pelo novo governo.
Fernando Schuler, por sua vez, apontou diferenças nas estratégias econômicas ligadas aos diversos grupos políticos na disputa eleitoral. Ele acredita que a possível reeleição de Lula pode resultar em uma política de maior expansão fiscal, com aumento de receitas e despesas, enquanto uma administração da oposição poderia focar em medidas de contenção de gastos e reformas estruturais.
“O Brasil enfrentará isso. A forma como o Brasil lidará com essa situação será decidida nas eleições. Para mim, do ponto de vista econômico, é como o Brasil enfrentará essa questão”, afirmou Schuler, referindo-se aos desafios fiscais e ao crescimento da dívida pública.
O professor ressaltou que as opções para o novo governo incluem, de um lado, medidas para aumentar a arrecadação e, de outro, iniciativas para reduzir ou conter despesas. Entre as possibilidades citadas estão mudanças nas regras de vinculação de gastos, alterações nos indexadores e uma nova rodada de reformas, incluindo previdenciária e administrativa.
Para Xavier, independentemente do resultado das eleições, a política monetária continuará atrelada ao comportamento da inflação e da atividade econômica. O economista também destacou a inadimplência, que tende a permanecer elevada enquanto os juros reais se mantiverem em níveis restritivos. Assim, ele recomenda um critério mais rigoroso nas concessões de crédito e nas decisões empresariais para o próximo ciclo.
Schuler também observou que o cenário após as eleições dependerá da escolha entre diferentes instrumentos de política econômica. “Existem inúmeras ferramentas disponíveis para aumentar a receita. Existem ferramentas para cortar despesas”, concluiu. Ele destacou que a questão central será qual conjunto de medidas será adotado pelo próximo governo para enfrentar o desequilíbrio nas contas públicas.











